Ashtanga Vinyasa Yoga

Por Paula Medeiros e Thiago Abreu*


O Ashtanga Vinyasa Yoga é uma prática ensinada no sul da Índia, em Mysore, por Sri K. Pattabhi Jois. Pattabhi Jois foi discípulo de Krishnamacharya, que começou a ensinar o Ashtanga no início do século XX.

Houve uma grande popularização do Ashtanga no Ocidente e o slogan dominante é de que esta é uma das práticas mais fortes e exigentes no plano físico. Não podemos esquecer que a popularização nem sempre significa aumento e aprofundamento da compreensão e de que os slogans normalmente deixam pouco espaço para detalhes, o que acaba gerando mitos e idéias equivocadas. Desta forma, apesar do Ashtanga ser realmente uma prática de Hatha Yoga forte e intensa, ele não pode ser confundido com uma ginástica cheia de pré-requisitos para ser praticada. Por ser um sádhana, ou seja, uma prática que visa o auto-conhecimento e a auto-transformação, o Ashtanga carrega em si toda a profundidade a que o yoga se propõem e está disponível a todos, independente de idade, sexo ou habilidades específicas. O único pré-requisito é a identificação com a prática. Ou seja, você precisa experimentá-la, conhecê-la melhor e ver se é o tipo de trabalho que deseja desenvolver.

As possibilidades de prática são inúmeras, pois existem diferentes linhas de yoga, mas é importante frisar que não há opção melhor ou pior, certa ou errada, pois não há um yoga que seja o melhor, mas sim aquele que se adequa melhor à sua personalidade, ao seu funcionamento psíquico e corporal. Apesar de existirem diferentes caminhos, todos pretendem nos conduzir a um mesmo fim: a transformadora experiência de integração, maior conscientização e harmonização interior. Podemos pensar no yoga como uma nova atitude perante o mundo, tanto externo quanto interno, e as diversas linhas como diferentes formas para se conquistar essa nova atitude, esse estado de espírito mais alegre e espontâneo.

O Ashtanga é um método que utiliza as posturas tradicionais do Hatha Yoga, estruturando-as em séries fixas. São ao todo seis séries, nas quais os asanas (posturas psicofísicas) são organizados numa ordem lógica: cada postura prepara a próxima, cada postura desenvolve a força, a flexibilidade e o equilíbrio necessários para seguir na série gradualmente. Inicialmente, o trabalho é direcionado para a primeira série, conhecida como Yoga Chikitsa ou Yogaterapia. Cada asana possui benefícios específicos, mas de forma geral, os asanas desta série enfatizam o alongamento e alinhamento do corpo, a purificação dos órgãos internos e o desenvolvimento da respiração.

Apesar de ser uma série fixa de posturas, que deve ser praticada com regularidade, o Ashtanga não é um processo mecânico e não deve ser praticado de forma automática. Por várias razões físicas, emocionais e mentais, nunca somos exatamente a mesma pessoa que fez a última prática, mesmo que a seqüência de posturas seja exatamente igual. Podemos estar melhores ou piores, mas nunca iguais, e se nos mantivermos atentos, conscientes e em auto-observação, percebemos que cada prática é uma nova vivência e um novo aprendizado.

E é aí que entra a importância da respiração. Por mais benéfica que seja uma postura, ela só estará completa se a correta atitude mental estiver presente durante a prática. E para que possamos nos familiarizar com essa atitude interna de observador atento, cuidadoso e respeitoso, precisamos nos conectar com a respiração. A principal característica do Ashtanga é, portanto, a conexão dos movimentos com a respiração. Há, durante toda a prática, uma interligação das posturas num fluxo contínuo de movimento e respiração profunda. É o que chamamos de vinyasa: sincronia entre respiração e movimento. É esse princípio que torna a prática intensa, pois a seqüência de posturas vai sendo praticada de forma fluida de acordo com a entrada e saída ininterrupta de ar. Acontecendo de forma dinâmica, fluida e envolvente, a prática permite uma consciência mais integrada do momento presente e de si mesmo (respiração, corpo e conteúdos mentais/emocionais).

A proposta do vinyasa é criar unidade e integrar os movimentos do corpo, dos mais tangíveis aos mais internos. Quando aplicamos esta técnica, não estamos apenas interligando a respiração ao movimento externo do corpo, mas também aos movimentos internos, pois o ritmo respiratório está intimamente relacionado com o funcionamento dos órgãos (ex: os batimentos cardíacos), com os estados emocionais e com o ritmo da atividade mental. Assim, temos a oportunidade de experimentar o corpo num funcionamento mais harmonioso e integrado. Uma respiração equilibrada influenciará positivamente o sistema circulatório, endócrino e toda atividade interna que contribui para o bem estar físico, psíquico e energético.

A respiração é, portanto, o coração do Ashtanga. A técnica utilizada é o ujjayi (respiração vitoriosa). A sonoridade decorrente do ujjayi é tranqüilizadora. Uma leve contração da glote faz com que o ar flua com uma certa pressão, produzindo um som suave e contínuo, baixo e uniforme como um sussurro. No início, o não domínio da técnica pode produzir uma respiração ruidosa, mas, aos poucos, vamos aprendendo que o ujjaiy não é um ruído, mas sim uma música, um som apaziguador que te ancora no presente, proporcionando maior presença, interiorização da atenção e aquietamento da atividade mental. Gradualmente vamos aprendendo a respirar de forma mais tranqüila e profunda e a vivência do momento presente se torna cada vez mais clara. As alterações incessantes da mente nos tiram do estado original de paz interna, mas a trilha sonora de uma respiração harmoniosa e o aquietamento da atividade mental nos reconectam a este estado original.

Além da organização das posturas em séries, da respiração ujjayi e do vinyasa, outras duas técnicas caracterizam a prática do Ashtanga: os bandhas e os drishtis. Os bandhas são contrações sutis de certos músculos que permitem direcionar o fluxo interno de energia de forma a gerar leveza, força e um forte fogo interno. Os bandhas ajudam a economizar a energia e canalizá-la, tornando a prática mais leve, reduzindo o esforço físico, estruturando e protegendo a coluna. Os drishtis são pontos de fixação do olhar que evitam distrações durante a prática. É a busca de foco a partir do direcionamento da atenção visual. Numa abordagem mais ampla e menos técnica, os drishtis propõem uma nova perspectiva de visão: somos constantemente impulsionados a direcionar nosso olhar para fora, para o outro, e muitas vezes de forma crítica, avaliadora, um olhar de competição e comparação. Na prática, a proposta é manter o olhar dentro do campo espacial da postura, sem se distrair com o cenário externo, seja outros praticantes ou a própria sala. Esse olhar direcionado para a postura, para o próprio corpo, não é um olhar de avaliação ou julgamento, mas sim de concentração.

Movimento para a quietude, uma espécie de prece com o corpo, o Ashtanga pode levar o praticante dedicado a uma auto-descoberta profunda.

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